Waldeinsamkeit
Chegamos a casa. Despi-me e coloquei as tuas calças de fato de treino. Colocaste música e abriste as garrafas de vinho. Serviste delicadamente o vinho branco, sendo que gentilmente me concedeste o melhor copo. Peguei nele, dei um gole e acendi um cigarro na varanda. Ao longe a tua coluna ecoava Funny Valentine e o meu corpo fazia pequenas ondulações ao som da melodia. Fechei os olhos e senti um floco de neve minúsculo molhar-me o lábio superior. Era uma noite fria em Hamburgo. Uma noite como outras tantas que possivelmente já viste. Porém, desta vez ali estava eu, de calças fato treino e sotia de renda, a dançar à tua varanda. Ali estava eu a saborear o meu cigarro, numa noite em que caíam pequenos flocos de neve depois de percorrer três mil quilómetros para te ver.
E, ali estava eu. Estava ali, é tudo o que posso dizer. Há momentos que são reduzidos a estar-se num sítio e este foi um deles. A realidade é que quando decidi ir ter contigo, realizei o meu derradeiro acto: o de destruição. Eu sabia R. Eu sabia que me ia destruir ainda mais do que na primeira vez, mas talvez fosse exactamente isso que precisava. Destruir-me, para me reconstruir nos meus próprios termos. À minha maneira. E, naquela noite em que os flocos de neve caíam do céu negro, estavas na cama a ler as notícias quando percebi o quanto te amava. E, por isso, fiquei ali. Quieta, imóvel, em pânico a fumar e a beber.
Levantaste a cabeça, vieste na minha direção e beijaste-me. Foi no teu beijo que percebi que não fazias ideia do quanto eu te amava. Foi com aquele derradeiro gesto de denúncia que percebi que não entendias o que faria por ti. Foda-se R. era uma palavra, uma palavra só e abandonava tudo. E, o que mais custa não é ter pensado nisto, é hoje escrevê-lo nesta folha.
Foi nesta noite que tive a confirmação que continuas a ser o cobarde que conheci em Lisboa. O mesmo cobarde que conseguia adormecer quando passávamos noites juntos. Sempre te invejei por isso, mas naquela noite em Hamburgo a minha inveja transformou-se em raiva. Mas, não pude amaldiçoar a tua cobardia. Já tinha desfrutado dela, ríspido seria recusá-la porque não me favorecia. Olhei para ti e mordi o lábio. Beijei-te em direcção à luz e voltei a olhar-te. Viste no meu comportamento uma provocação, seguraste-me no cabelo e mordeste-me o pescoço. Fodemos.
Acordei na manhã seguinte com o som dos vizinhos a despedirem-se. E eu, olhava para a luz branca matinal que te batia no rosto. Fiquei ali, durante muito tempo a olhar-te. A contemplar a tua cobardia que tão bem te fazia dormir. Voltei a sentir inveja de não a ter. Olhei-te mais uma vez. Os cabelos loiros na almofada azul escura, a mão suave na minha anca, o sexo ainda rosado, o peito luminoso e ligeiramente vermelho, os lábios húmidos e a perna que teimava em tremer. Olhei-te durante mais algum tempo, enquanto dormias sem saber o quanto te amava.
De repente, sou violada por um choro desumano. E, entre um soluço e outro, cada partícula do meu corpo começou a acumular o peso do universo. Tornei-me num saco de areia. Não conseguia fechar as mãos com o peso, nem os olhos com a tristeza. Modifiquei-me para este vazio doloroso, no meio desta fantasmagórica revolução que era a luz branca que te batia no corpo. O mundo tornou-se, de repente tão grande e foi como se estivesse sozinha num bosque. Faço um esforço de doente para sair daquela cama e sento-me à janela. Fumo e, nem o cigarro no canto da boca é suficientemente forte para esboçar um sorriso ilusório – muito menos para me acalmar. Volto a olhar para ti, deitado na cama iluminado pela luz branca matinal. E, dentro de mim o vazio do bosque ecoa. Teimosamente, sou atacada por uma grande cólera. Um tipo de cólera, que nos revela sem dó, que somos humanos. E choro por não conseguir ser mais abstracta. Choro por sentir tudo e tanto. Fui transfigurada pelo meu próprio gesto.
Subitamente, tudo pára. Acordas, olhas para mim. Olho a luz branca, agora oca e tranquila. Apago o cigarro. Beijas-me a face e vais buscar café. E eu, senti-me eterna!

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