Retrato de duas putas enquanto bebem



"Às cinco no local habitual.” É o suficiente para me fazer sair do sítio de onde estou, parar tudo o que estou a fazer e meter-me a caminho. Chego eu à esplanada do costume. No sítio do costume. Com as mesmas pessoas desprezíveis do costume. Na mesma mesa suja, velha e ferrugenta do costume. A companhia é a do costume. A bebida também. 
Quando Ela me envia esta mensagem significa uma única coisa: largar a tristeza em rodopios de ciclone. E ali ficamos horas a servir de sombra à mesa oscilante. E bebemos, fumamos até que começamos a falar alto como só os marinheiros fazem.
E as pessoas olham e nós falamos cada vez mais alto. Rimos. Choramos, por vezes. E as pessoas olham. Ela pede-me para falar mais baixo, na realidade apenas eu falo alto como os marinheiros. Bebemos até cair. E as pessoas olham. Ela pede-me que fale baixo. Sem querer saber, levanto-me e vou buscar mais cerveja. As pessoas olham.
Anoitece. As pessoas que passam são cada vez menos. Na minha cabeça a cidade está aos berros e, por isso, falo ainda mais alto. Ela pede-me para falar mais baixo. Peço-lhe desculpa. Um homem passa e chama-me histérica. Ela levanta-se e grita 
“’Pó caralho!” 
Vou buscar mais cerveja e começamos a rir.
Anoitece. E com a escuridão vem o silêncio. Ficamos ali, imóveis a beber. Olhamos uma para a outra. Eu choro como se estivesse engasgada. Outro passa e grita: “Vocês são é umas putas bêbedas!”. Eu paro de chorar olho para Ela e digo: “e somos!”. Ela diz-me que tem fome. Saímos da esplanada, da merda da esplanada, e desaparecemos pelas ruas estreitas da avenida. Entre muros, calçada, lágrimas e sorrisos embarcamos no medo esquecido de mais um dia.

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