São Pedro de Alcântara
Numa tarde frustrante, como em tantas outras, sentei-me no mesmo banco. Naquele banco onde observo Lisboa ser banhada pelo Sol. Nessa tarde frustrante tive um encontro importante. Era uma tarde banal como tantas outras. Os turistas passavam por mim, ignorando por completo a minha triste presença, o fadista cantava e tocava no seu local habitual, os pombos vinham-me visitar na esperança de uma migalha perdida e o vendedor de bugigangas piscava o olho e sorria sempre que passava por mim. Mas naquela tarde sentia-me tão frouxa que ao invés de abrir o meu livro, fiquei apenas a observar o que me rodeava.
O aspecto comum e banal de tudo feria-me como um gesto brutal. Sentia uma necessidade ilusória e desenfreada de me descartar de mim própria. O livro não era mais suficiente. A cerveja também. E, muito menos a música dos auscultadores servia o seu propósito. De repente reparei, mesmo na ponta do miradouro, num jovem casal que bebia cerveja. Eu estava perfeitamente à vontade com aquele amor ébrio e, por isso, observei-os durante algum tempo. As minhas inquietações esbatiam-se, a minha personalidade adormecia naquele ambiente solarengo e lírico. Caí num deslumbramento parvo, como só um provinciano cai perante uma bela montra, e a felicidade daqueles dois foi, por breves e ínfimos instantes, a minha.
Ele morde-lhe o pescoço e o sonho e deslumbramento que me visitavam morreram num ápice. Com aquele derradeiro gesto grotesco, tenso e seco; o meu lirismo deu lugar a uma tortura demasiado real. Através daquele gesto deu-se um eco da minha vulgaríssima vida. Tudo me soou de repente oco, falso, humano e, por isso, falível.
Talvez porque eles estavam no mesmo canto que nós uma vez estivemos. A partilhar o mesmo amor alcoólico e silencioso que nós tantas vezes partilhámos. A dor tornou-se a minha companhia e se antes sonhar era impossível, agora era irremediavelmente tortuoso. Dei a minha tarde acabada com um olhar cínico e gélido para o horizonte. Levantei-me do banco, coloquei uma moeda no chapéu do fadista, acendi um cigarro e, não nada mais restou a não ser descer para os Restauradores.

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