Olhos azuis, Cabelo D'ouro
Juntos, calávamos-mos como às
vezes fazíamos, durante muito tempo. Olhávamos um para o outro durante muito
tempo. Como se para nós a beleza da paisagem estivesse no olhar um do outro. O
confortável que era olhar-te no silêncio das nossas palavras.
Na maioria das vezes eras tu que
falavas e quebravas o silêncio, talvez porque este te inquietava. Começavas a
falar. Fazias isto muitas vezes durante os nossos passeios. E eu, ouvia com
atenção tudo o que me contavas. Mas, naquela noite em especial, nunca mais me
esquecerei da doçura com que me disseste que eu falava pouco.
Fiz um esforço para falar mais
enquanto caminhávamos para casa, mas as palavras tornaram-se em algo abstracto.
Sem significado. Restos. Porém, percebi que te trouxe alguma calma. Quando
finalmente chegámos ao teu quarto colocaste música. E, mais uma vez sob a luz
fluorescente olhei para ti. Em cantos opostos do quarto e enquanto te despias,
olhei-te como se fosses o mais perfeito soneto. E a minha boca fechou-se. Senti
os meus olhos brilharem e o meu corpo preparou-se para te receber.
Foi, ali naquela noite de
Fevereiro, que te vi pela primeira vez e percebi que eras um comum mortal como
tantos outros. Os olhos, ao contrário da alma, têm este efeito de humanizar
tudo – de limitar e definir. Foi a primeira vez que percebi que não te
conhecia, porém, a primeira que soube que não me tinha enganado: amava-te!
“vivemos, porque os nossos olhos
dão às causas uma aparência banal e familiar. Se pudéssemos ver a nossa dor!
Desvanecer-se-ia por encanto. Nada resiste ao fogo visionário que lampeja nas
pupilas.”
- O Pobre Tolo, Teixeira
de Pascoaes (página 84)
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