As Putas dançam um Slow
“En Soireé” dizia a T. Bebíamos
vinho e fumávamos cigarros. Há qualquer coisa de infinito nas noites lisboetas
em casa dos amigos. O quente da casa dela numa noite de inverno. A sala com as
janelas fechadas, devido à chuva, que criam efeito de estufa. A música soul a tocar
no fundo. Somos jovens, cheias de vida, com o sangue ardente a correr nas
nossas veias. Temos medo, medo do que nos espera. Medo de falharmos. Medo de
termos todas as munições e, ainda assim, não acertarmos no alvo. Somos jovens,
belas e inteligentes. Somos fervorosas, pungentes e obstinadas. Queremos tanto
e tudo ao mesmo tempo e, isso não nos torna nem mais, nem menos “qualquer
coisa”. Somos o que somos. E nesta noite fomos mais duas almas que dançaram ao
som de Nina Simone na sala.
Bebemos, dançamos. Estivemos
juntas numa forma de não estar, porque o que de mais belo a amizade tem é
estarmos ambas na mesma sala e sermos cada uma, uma só. Não queremos pertencer
uma à outra e no entanto somos feitas da mesma matéria. As garrafas de vinho
fluíam do mesmo modo que o nosso coração batia. O motivo que nos levou a
estarmos ali perdeu-se, como se perde tanta vez e, vivemos mais uma vez nestas
horas infinitas que se é ser jovem.
Não interessa se não estás aqui comigo para dançar Nina Simone. Não interessa se a T. fodeu com o ex a noite passada. Não interessa para onde vamos, nem de onde vimos. Somos seres simbióticos e individuais. Seres que se entregam à mais profunda das sensações – o álcool. A academia é posta de parte, a inteligência e questões metafísicas também. Que se foda a política, a sociologia, a literatura, o cinema, o teatro e a bisbilhotice. Que se fodam os gajos, os corações partidos, a distância, a bagagem emocional, os amigos de café e conveniência, os pais condescendes e galináceos, a distância, a falta de tempo e o medo. Somos duas almas em fusão num momento que parece parar no tempo. Somos duas mulheres que dançam a noite toda e suam como se o suor lhes lavasse a alma. Hoje, somos duas tolas numa Soireé ao luar.
Hoje, nesta forma de estarmos, somos apenas isso: indivíduos. Não há mais nada. Não resta mais nada para dizer. Falamos com o corpo. Ouvimos através da Nina Simone. A chuva lava a rua e os nossos pensamentos. Os outros são só isso. As merdas são diluídas com o vinho. As angústias evaporam-se com o tabaco. E, por isso, sinto-me infinita.

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