correspondência I
Sei que estás a dormir mas preciso de partilhar isto contigo. Hoje sinto-me optimista - que tamanha banalidade. Chorei até aqui na viagem de comboio. Sinto que por mais assustadora que a vida seja e por mais embaciada que ela nos surja, por vezes, um raio de luz milenar parece visitar-nos.
Estava estagnada, sabes? Por vezes a estagnação é um cancro terminal para a alma. Pensei durante muito tempo que a minha vida, por imposição, se resumisse a trabalhar (no mesmo local maldito) e estudar. Hoje foi diferente. Voltei ao mesmo sítio e, pela primeira vez, disse adeus. Maldito, mas importante local. Não sei se disse adeus para sempre, mas por agora a melhor palavra a ser dita é mesmo "adeus". É assustadoramente belo ver-me agora a tomar as rédeas de um caminho diferente. Não sei o que me trará, não sei se serei capaz de cumprir os meus objectivos ou sequer lá chegar, mas nada disso me parece importar - pelo menos hoje!
Voltei a Lisboa e estou sentada numa esplanada a beber o meu abatanado. Estou sentada a beber a minha bebida de sempre, porém num sítio novo, a ler um novo livro. Sabe bem fazer algo novo sem saber o que virá a seguir. E não faz mal não saber. E não faz mal ser tudo uma interrogação. A tua viagem vai-te trazer este sentimento. É novo. Assustador. Incerto. Inconstante. Um borrão. Mas tudo isto nos vai fazer bem. Às vezes enfrentar o nevoeiro é crescer. Estou a divagar e, perdoa-me porque é demasiado cedo. Apenas queria partilhar contigo esta plenitude de me pertencer a mim.
Acima de tudo queria dizer que acredito em ti, em mim e no nevoeiro que se aproxima. Se tudo correr mal estarei aqui, sei que estarás aqui e que juntas ou sozinhas arranjaremos uma solução.
Lisboa, 2 de Agosto
G.
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