Tempestade



Não existem paredes que me rodeiam. Os meus pés andam soltos. Busco a capacidade de renascer das ruínas e de clamar pelo paladar fresco de uma primeira paixão. Sou uma jovem mulher, de corpo feito, torneado pelos palcos da vida, marginalizada nas coxias em que te encontrei. Julgo-me como uma aprendiz de feições delicadas e alma voraz. Indomável, corajosa e cruel. Humana e decidia.

Talvez seja por isso que ando pelas ruas da minha cidade sozinha. Recito os meus versos, arrasto os meus avessos, arranco olhos e sugo almas. No soalho do meu quarto, guardo uma caixa incompleta de reações, expressões extirpadas dos rostos de todos os que passam e olham para mim. 

A minha sanidade? Livro-me dela a cada esquina, a cada copo sujo, a cada palavra cuspida, a cada refrão, a cada amante e em cada pensamento. Afinal, de que me vale amar tanto se nela fizesse o meu descanso? Quero gritar, explodir os teus tímpanos com obscenidades e indecências pagãs. Quero gemer alto ao ter-te nos meus braços, engolindo-te deliciosamente, no massajar dos corpos. Quero acordar o vizinho simpático de cara amassada e de pijama xadrez. 

Busco a liberdade de espírito mesmo sabendo que só a morte ma trará. Faço da minha estrada um jardim de flores de gelo que derretem e escoam pelas bocas de lobo das avenidas. E assim, apesar da minha condição limitada de ser o que sou, um ser humano inócuo e medíocre, de amor imprestável, de palavras vãs e impermeáveis, vou produzindo os meus sonhos, vou andando pelas ruas. 

Vou andando pelas ruas, descarregando o meu coração em cada lixeira que passo, vou parando de respirar. Os meus olhos estão fundos de tanto vinho e o cigarro no canto da boca simula um sorriso inexistente. Tenho os pés sujos e descalços de tanta ilusão e a alma devastada e corrompida pelo beijo sussurrado no telemóvel, pelo miradouro onde brilha o sol, pelo medo ou falta de coragem, pelas chamadas não atendidas e pelas mensagens não respondidas. 

Quero fabricar o ar, ser uma nuvem tímida a vaguear no alto do mundo. Quero avistar os teus olhos azuis, os teus gestos, os teus actos e descansar. Que a minha visão panorâmica me permita observar as relações frágeis dos minúsculos moradores deste vasto precipício, uma teia complexa e difusa de impressões corriqueiras. Não fales. Não me mandes mensagens. Não digas nada. Não sejas. Ouve apenas. Escuta. Paira.

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