Um brinde no escuro
Sabia que irias. Sempre o soube. No dia em que decidimos tirar as roupas para fornicar sabíamos que o fim não estava assim tão longe. Lembro-me do meu estômago. Das borboletas. O termo "borboletas no estômago" é uma forma poética do corpo dizer o quão imensamente fodidos estamos.
Foste cobarde. O teu amor era forte, o teu corpo fraco. Foste cobarde como tantas vezes fui por acreditar que a tua coragem viria depois. A coragem nunca vem depois. Ou vem ou não vem. Não posso de todo amaldiçoar a tua cobardia. A tua boca nunca foi tão rápida como as tuas pernas, que me prenderam. As minhas pernas não foram tão rápidas como a minha boca para te ter impedido. Foste cobarde. Pela gentileza, simpatia de dizeres sempre que sim e por me teres feito acreditar. Já desfrutei da tua cobardia, ríspido seria recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhida. Porque não ficaste. Serei sempre aquela que deveria ter sido, enterrada sem morrer, a que desapareceu permanecendo perto, aquela que não pode existir. Sou o teu constrangimento mais alegre. A tua ferida, o teu escape, o teu feriado. Ainda tive a sensação de que voltarias. Mentira.
Foste cobarde. O teu amor era forte, o teu corpo fraco. Foste cobarde como tantas vezes fui por acreditar que a tua coragem viria depois. A coragem nunca vem depois. Ou vem ou não vem. Não posso de todo amaldiçoar a tua cobardia. A tua boca nunca foi tão rápida como as tuas pernas, que me prenderam. As minhas pernas não foram tão rápidas como a minha boca para te ter impedido. Foste cobarde. Pela gentileza, simpatia de dizeres sempre que sim e por me teres feito acreditar. Já desfrutei da tua cobardia, ríspido seria recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhida. Porque não ficaste. Serei sempre aquela que deveria ter sido, enterrada sem morrer, a que desapareceu permanecendo perto, aquela que não pode existir. Sou o teu constrangimento mais alegre. A tua ferida, o teu escape, o teu feriado. Ainda tive a sensação de que voltarias. Mentira.
Foste cobarde, sabes? Não te compreendo. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até a merda do oceano. As saudades ficam violentas quando vejo fotos. As saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido. Tu avistaste-me que não tinhas escolha. Pediste-me perdão, foste educado, pediste licença, agradeceste e saíste. Engoli as palavras para poder dormir à noite. Escrevi-te inúmeras cartas. Os dias foram escuros e eu não soprei a luz. Os dias foram lentos e não havia movimentos na rua.
Foste cobarde. Merda, és cobarde. O que me atormenta é que sou capaz de amar a tua cobardia. Foi o que restou de ti em mim. Que o teu peito expluda e nunca mais seja o mesmo. Desejo-te um beijo forte e amargo. Que te doa os lábios e o coração. Que a tua necessidade vire aflição e que te perguntes todas as noites frias pelo quente do meu corpo. Meu cabrão, que não te esqueças nunca das noites de mel que passámos.
Já me perdi nesta história tempo demais. Então é isto. Seguimos em frente e fazemos de conta que nada aconteceu. Pedi auxílio ao tempo, ele riu-se e ofereceu-me uma bebida. Gin tónico; a vida trata-me bem. Um brinde!

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